
Primeiro radiotelescópio brasileiro ficará pronto em 2023, afirmam cientistas
04/08/2022Radiotelescópio BINGO: Brasil avança na exploração do Universo com projeto inovador no sertão da Paraíba
Nesta quarta-feira (3), os pesquisadores responsáveis pelo projeto do primeiro radiotelescópio do Brasil, o BINGO (Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), divulgaram os sete primeiros artigos fundamentais que definem todos os aspectos científicos e técnicos do projeto. Esses documentos são essenciais para a compreensão dos objetivos e da estrutura que sustentarão essa ambiciosa iniciativa científica.
Durante uma coletiva de imprensa, o doutor em Física e professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), Élcio Abdalla, um dos principais nomes à frente do projeto, destacou que um dos grandes propósitos do BINGO é observar regiões do Universo que permanecem invisíveis aos olhos humanos e aos instrumentos tradicionais.
Objetivos científicos e parcerias internacionais
Conforme detalhado no comunicado publicado na revista Astronomy & Astrophysics, o BINGO é fruto de uma colaboração internacional envolvendo a USP, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), universidades europeias e chinesas, e a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). O radiotelescópio terá a capacidade inédita de detectar oscilações acústicas bariônicas e as misteriosas rajadas rápidas de rádio (FRBs), fenômenos que podem trazer respostas importantes sobre a formação e a evolução do cosmos.
Os sete artigos recém-publicados consolidam a base científica do BINGO, abordando desde a metodologia e tecnologia aplicadas até os métodos de análise que serão utilizados para interpretar os dados coletados. Essa robusta produção científica é essencial para assegurar a credibilidade e a eficácia do projeto.
Contribuições para a cosmologia: matéria e energia escuras
Um dos grandes focos do BINGO será estudar o modelo cosmológico conhecido como ΛCDM (Lambda-Cold Dark Matter), que combina a teoria do Big Bang com o conceito de matéria escura fria. Segundo o professor Abdalla, o Universo abriga dois tipos principais de “objetos escuros”: a matéria escura e a energia escura.
A matéria escura, conforme explicou o físico, é como um “líquido” que conecta e mantém coeso tudo o que existe no cosmos. Já a energia escura, embora essencial para entender a expansão acelerada do Universo, ainda é um conceito envolto em mistério. Com a ajuda do BINGO, os pesquisadores pretendem lançar luz sobre essas entidades cósmicas e aprofundar nossa compreensão do Universo.
Versatilidade do radiotelescópio: da cosmologia à astrofísica
Além de sua função principal voltada para a cosmologia, o BINGO também desempenhará um papel significativo na astrofísica. Ele será capaz de detectar e analisar fenômenos transitórios, como as rajadas rápidas de rádio, e contribuirá para estudos em ciência galáctica e extragaláctica. A capacidade de observar eventos transitórios no espaço pode levar a descobertas surpreendentes e abrir novas áreas de pesquisa.
As obras de construção do radiotelescópio ainda estão nos estágios iniciais, mas a previsão é que o BINGO esteja totalmente operacional até o fim do primeiro semestre de 2023. Embora o projeto tenha sido concebido no Brasil, ele conta com investimentos internacionais, principalmente da China, e já acumula um orçamento de aproximadamente 30 milhões de reais.
“A ciência sempre nos oferece respostas, às vezes de imediato, às vezes após anos de estudo, mas ela tem o poder de transformar a sociedade”, ressaltou Abdalla durante a apresentação.
Impactos regionais e tecnológicos
A escolha da cidade de Aguiar, no sertão da Paraíba, para abrigar o radiotelescópio não foi aleatória. A região oferece condições ideais para observações astronômicas, como baixa poluição eletromagnética e uma localização geográfica estratégica. Esses fatores são essenciais para a captação precisa dos sinais de rádio vindos do espaço.
Além dos avanços científicos, o projeto promete trazer benefícios concretos para a população local. O professor Abdalla enfatizou que a instalação do BINGO impulsionará o desenvolvimento regional, promovendo a construção de novas estradas, a geração de empregos e o fomento ao turismo científico. A presença de uma instalação científica de ponta em Aguiar deve também atrair pesquisadores, estudantes e visitantes, contribuindo para a dinamização econômica da cidade e da região.
Perspectivas futuras
O BINGO representa uma grande conquista para a ciência brasileira, colocando o país em posição de destaque no cenário internacional da pesquisa astronômica. Ele também exemplifica como a ciência e a tecnologia podem ser aliadas poderosas no desenvolvimento econômico e social.
Com a conclusão do radiotelescópio prevista para 2023, a comunidade científica aguarda ansiosa pelos primeiros dados que poderão mudar a forma como entendemos o Universo. Até lá, a construção do BINGO continua avançando, impulsionada por uma colaboração internacional e por um forte compromisso com a inovação e a descoberta científica.